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Ansiedade

Ansiedade: quando deixa de ser normal, e o que a psicoterapia faz com ela

Todo mundo sente. A diferença está no que ela impede. Os sinais, o ciclo que se repete, e por que 'controlar' costuma piorar.

Escrito pela equipe do Instituto Ser, em Suzano — SP.
Jéssica Marinho Vilela · Psicóloga · CRP 06/213353
Rosana Yamamoto · Psicóloga e neuropsicóloga · CRP 06/111030
Fernanda Sayuri · Nutricionista · CRN-3 58729

Publicado em

Tem gente que evita o que sabe que daria conta, e depois passa o dia se cobrando por isso. Tem quem durma mal antes de qualquer coisa marcada — uma reunião, um exame, um jantar. Tem quem sinta o corpo em alerta num dia em que não há perigo nenhum. E tem quem já saiba o nome disso há anos e nunca tenha trabalhado o assunto, porque “todo mundo é ansioso”.

Todo mundo sente ansiedade. É verdade. Este texto é sobre a linha entre a ansiedade que faz parte e a que passou a mandar.

Ansiedade não é o problema

Vale começar por aqui, porque muda a conversa. Ansiedade é o sistema de alarme do corpo: antecipa perigo e prepara para reagir. Sem ela, ninguém estudaria para prova, olharia para os lados antes de atravessar, ou chegaria no horário. Um pouco de ansiedade antes de algo importante é o corpo funcionando.

O problema aparece quando o alarme dispara sem perigo, com frequência, e a pessoa passa a organizar a vida em torno de não ouvi-lo. Aí a ansiedade deixa de proteger e passa a encolher.

Os sinais de que passou da linha

Não é uma lista de diagnóstico — é o que aparece no consultório:

  • Evitar. Deixar de fazer coisas que a pessoa sabe que daria conta: uma apresentação, uma viagem, uma conversa, dirigir, ligar para alguém. O alívio de evitar dura pouco; a lista do que se evita cresce.
  • Antecipar. Sofrer por dias antes de algo que ainda não aconteceu — e que, quando acontece, quase nunca é como se imaginava.
  • Ruminar. Repassar a mesma conversa, o mesmo erro, o mesmo “e se” dezenas de vezes, sem chegar a lugar nenhum.
  • O corpo reagir. Coração acelerado, aperto no peito, falta de ar, tensão no pescoço, estômago ruim, tremor, sono que não vem — sem causa física que o médico encontre.
  • Pedir garantia. Perguntar de novo se está tudo bem, checar de novo se a porta está trancada, mandar mais uma mensagem para saber se a pessoa chegou.
  • Irritar-se com quem está perto, porque o corpo está em alerta e qualquer coisa vira ameaça.

Um ou dois desses sinais, de vez em quando, é vida. Vários, por semanas, e a sensação de que a vida está ficando menor — isso pede atenção.

O ciclo que se repete

A ansiedade se mantém por um mecanismo simples e traiçoeiro:

  1. Aparece uma situação (a reunião, o convite, a fila do banco).
  2. O corpo dispara e a cabeça interpreta: “não vou dar conta”, “vai dar errado”, “vão perceber”.
  3. A pessoa evita — não vai, adia, inventa desculpa.
  4. Vem o alívio imediato. E é aí que o ciclo se fecha: o cérebro aprende que evitar salvou, e da próxima vez o alarme toca mais cedo e mais alto.

Por isso “controlar a ansiedade” costuma piorar. Quanto mais a pessoa luta para não sentir, mais o corpo entende que aquilo é perigoso. O trabalho da psicoterapia não é eliminar a ansiedade — é mudar a relação com ela, para que ela pare de decidir.

O que a psicoterapia faz

Dentro de um processo de psicoterapia, com foco combinado, trabalha-se:

  • O ciclo. Tornar visível o que dispara, o que a cabeça diz, o que a pessoa faz, e o que isso ensina ao corpo.
  • Os pensamentos e as interpretações. Não para “pensar positivo” — para olhar o pensamento como pensamento, e não como fato.
  • As esquivas. O que a pessoa parou de fazer, e em que ordem faz sentido retomar.
  • A regulação emocional. O que fazer quando o corpo dispara — respiração, atenção, aterramento — sem que vire mais uma forma de fuga.
  • A tolerância ao desconforto. Aprender que dá para sentir ansiedade e fazer a coisa mesmo assim. É isso que quebra o ciclo.
  • Exposição, quando é clinicamente indicado. Enfrentar, aos poucos e com apoio, o que se evita. É a intervenção com mais evidência para ansiedade — e é feita com a pessoa, no ritmo dela, nunca imposta.

Abordagens como a terapia de aceitação e compromisso (ACT) e a terapia comportamental dialética (DBT) trabalham exatamente essa relação: sentir sem obedecer.

Quanto tempo

Não existe número de sessões que sirva para todo mundo. Há trabalhos breves — e trabalho breve não quer dizer superficial — e há processos mais longos, quando a ansiedade está amarrada a outras coisas: história, relações, trabalho, fase da vida. A indicação e a duração saem da avaliação do caso, não de um pacote.

Quando também é do médico

Psicoterapia e acompanhamento médico não competem. Quando os sintomas físicos são intensos, quando o sono está muito comprometido, quando há sinais de depressão junto, ou quando a ansiedade impede de funcionar mesmo com o trabalho terapêutico, a avaliação médica é indicada — e o trabalho continua junto, não no lugar. A psicóloga não receita, não pede exame e não opina sobre medicação.

Se a dúvida for “mas todo mundo é ansioso”

É. A pergunta não é se a pessoa sente ansiedade. É o que ela deixou de fazer por causa disso. Se a resposta for “nada”, está tudo bem. Se a resposta vier com uma lista, existe um trabalho a fazer — e ele não começa por parar de sentir.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individual. Em crise intensa, com sensação de perigo imediato, ou se houver pensamentos de não querer viver, procure atendimento médico de urgência ou o CVV (ligue 188, gratuito, 24 horas).

Existe um lugar para essa conversa

No Instituto Ser, em Suzano, a ansiedade é trabalhada dentro de um processo de psicoterapia, presencial ou online, por uma das psicólogas da casa. A primeira conversa é pelo WhatsApp, sem formulário e sem cadastro.

Jéssica Marinho Vilela — Psicóloga — CRP 06/213353 Rosana Yamamoto — Psicóloga e neuropsicóloga — CRP 06/111030

Referências: American Psychological Association — Clinical Practice Guideline / evidências sobre terapias baseadas em exposição para transtornos de ansiedade · Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The process and practice of mindful change (2ª ed.). Guilford Press.