Desejo
Baixa libido na perimenopausa não é só sobre sexo
Quando o desejo cai, não é só o sexo que esvazia. É apetite pela vida — e isso tem explicação.
Escrito pela equipe do Instituto Ser, em Suzano — SP.
Jéssica Marinho Vilela · Psicóloga · CRP 06/213353
Rosana Yamamoto · Psicóloga e neuropsicóloga · CRP 06/111030
Fernanda Sayuri · Nutricionista · CRN-3 58729
Publicado em
A conversa sobre queda de libido quase sempre começa e termina no mesmo lugar: a vida sexual do casal. É uma conversa curta, constrangida, e que deixa de fora a parte mais importante.
Porque quando o desejo cai, na maioria das vezes não é só o sexo que esvazia.
É a vontade de marcar de sair. É a curiosidade por uma série nova. É o gosto de cozinhar uma receita diferente. É aquele impulso de comprar uma roupa que não é básica. É o projeto que você adiava por falta de tempo e que agora você adia por falta de vontade — e isso é outra coisa completamente diferente.
A mais comum
A queda do desejo é a queixa sexual mais prevalente entre mulheres brasileiras de meia-idade, à frente de dificuldades de excitação e de orgasmo. Revisões brasileiras encontram prevalência de desejo sexual hipoativo variando de 11% a 75% conforme a população estudada — e menos da metade dessas mulheres procura ajuda profissional.
Desejo não é um departamento separado do corpo
A gente aprendeu a tratar libido como se fosse um interruptor específico da área sexual, que liga e desliga sem afetar o resto. Não funciona assim.
O que a gente chama de desejo é o mesmo movimento que faz uma pessoa querer — querer sair, querer provar, querer construir, querer alguém. É apetite pela vida, e o sexo é uma das expressões dele, não a origem.
Por isso a frase que a gente mais escuta não é “não tenho vontade de sexo”. É “não tenho vontade de nada” — e essa frase quase nunca chega à consulta ginecológica, porque parece assunto de outro consultório.
O que está acontecendo, de fato
Na perimenopausa, três coisas acontecem ao mesmo tempo, e cada uma sozinha já derrubaria o desejo de qualquer pessoa.
1. A química muda
A produção hormonal oscila e cai, e isso inclui os androgênios, que declinam gradualmente com a idade por redução da produção adrenal. Esses hormônios têm receptores espalhados pelo corpo inteiro — não apenas na área genital. A consequência não é só sexual: é de energia, de humor e de iniciativa.
2. O corpo passa a doer ou a incomodar
Ressecamento, ardência e dor na relação são comuns nessa fase, e têm uma particularidade importante: diferente das ondas de calor, essa parte não melhora sozinha com o tempo — tende a progredir se ninguém cuidar. E o corpo é rápido em aprender: o que dói, a gente evita. Depois de algumas experiências ruins, o desinteresse deixa de ser hormonal e passa a ser aprendizado.
3. A cabeça está ocupada demais
Desejo precisa de espaço mental. Uma mulher que dorme mal, que está no meio da geração sanduíche cuidando de filhos e de pais, que trabalha e administra a casa, não tem esse espaço — não porque não queira, mas porque a cabeça dela está cheia. Não existe desejo em cima de exaustão.
A conta que ela faz sozinha, e que está errada
Diante disso, a maioria das mulheres chega a uma conclusão sobre si mesma, em silêncio, e a conclusão é sempre alguma variação de:
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“Eu não amo mais o meu marido.”
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“Eu virei uma pessoa fria.”
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“Acabou para mim, é a idade.”
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“Tem algo errado comigo.”
Nenhuma dessas leituras costuma se sustentar quando a gente investiga. O que existe, quase sempre, é um corpo em transição, um sono destruído e uma vida sem nenhum espaço vazio — e não uma falha de caráter nem o fim de um casamento.
Mas a conta errada tem consequência real: ela produz culpa, a culpa produz afastamento, o afastamento produz mais distância, e aí sim o relacionamento adoece. Muitas vezes o problema não foi a queda do desejo. Foi o significado que ela deu à queda.
Por que isso não se resolve numa frente só
Desejo não volta com uma medida isolada, porque não caiu por uma razão isolada.
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A parte médica é da médica. Avaliação clínica, exames e qualquer decisão sobre terapia hormonal ou tratamento local são dela, e devem ser.
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A parte do corpo cotidiano é da nutrição e da prática. Sono, energia, inflamação, força e a relação com a própria imagem mudam muito o quanto uma mulher se sente habitando o próprio corpo — e ninguém deseja de dentro de um corpo em que não se sente bem.
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A parte do significado é da psicologia. É onde se desfaz a conta errada, onde se fala do que virou vergonha, e onde se olha para a relação — inclusive para a possibilidade de que a queixa de desejo esteja apontando para algo que já não estava bom antes dos hormônios.
A pergunta útil não é “como faço para ter mais desejo”. É “o que precisa mudar para que sobre espaço em mim?”
Uma última coisa, sobre a vergonha
Essa é a queixa que a mulher mais demora a contar. Ela conta do calor, conta do sono, conta da irritação — e guarda essa. Guarda da médica, guarda da amiga, muitas vezes guarda do próprio marido, que fica com a versão “estou cansada”.
O silêncio custa caro. Enquanto ninguém fala, cada uma acha que é a única — e a estatística mostra exatamente o contrário. É a queixa mais comum de todas.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individual. Questões médicas, exames e qualquer conduta medicamentosa — incluindo terapia hormonal e tratamentos locais — devem ser tratadas com médica ou médico de sua confiança.
Existe um lugar para essa conversa
No Instituto Ser, em Suzano, esse assunto entra tanto no atendimento individual quanto no círculo mensal — que é, para muitas mulheres, a primeira vez que elas escutam outra pessoa dizer em voz alta o que elas achavam que era só delas.
Referências: estudos populacionais brasileiros sobre função sexual em mulheres de meia-idade e revisões sobre transtorno do desejo sexual hipoativo publicadas em periódicos indexados · Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), material sobre disfunções sexuais no climatério.
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