Psicoterapia
Terapia para adolescentes: quando os pais devem procurar, e como funciona
Entre o que é da idade e o que pede ajuda existe uma linha — e ela não é o silêncio. O que os responsáveis precisam saber antes de marcar.
Escrito pela equipe do Instituto Ser, em Suzano — SP.
Jéssica Marinho Vilela · Psicóloga · CRP 06/213353
Rosana Yamamoto · Psicóloga e neuropsicóloga · CRP 06/111030
Fernanda Sayuri · Nutricionista · CRN-3 58729
Publicado em
Tem mãe que percebe o filho diferente e não sabe se é fase. Tem pai que vê a filha trancada no quarto há semanas e ouve “tá tudo bem”. Tem responsável que já tentou conversar, já tentou brigar, já tentou não fazer nada — e continua sem saber se aquilo é adolescência ou é sofrimento.
A dúvida é legítima, porque a adolescência muda tudo de uma vez: corpo, humor, amigos, sono, interesse, jeito de falar com a família. Boa parte disso é o esperado. Este texto é sobre a parte que não é — e sobre como funciona a terapia quando ela faz sentido.
O que é da idade
Antes dos sinais de alerta, os que não são alerta:
- Querer ficar sozinho, fechar a porta, preferir os amigos à família.
- Mudar de humor rápido, ficar irritado “do nada”.
- Dormir tarde e acordar tarde. O relógio biológico do adolescente é diferente do adulto — isso é fisiologia, não preguiça.
- Contestar, discutir, discordar de tudo que a família acredita.
- Mudar de estilo, de música, de turma.
Nada disso, sozinho, pede terapia. Pede paciência e presença. O adolescente que fecha a porta ainda quer saber que tem alguém do outro lado.
O que costuma pedir ajuda
A diferença não está no comportamento em si. Está em três coisas: intensidade, duração e prejuízo.
- Tristeza ou irritação que não passa — semanas, não dias — e que tira o interesse por coisas que antes importavam, inclusive os amigos.
- Isolamento que vai além da porta fechada: parar de sair, parar de responder, perder amizades sem substituir.
- Queda brusca na escola — não a nota que oscilou, e sim o jovem que ia bem e desligou.
- Mudança no sono ou na alimentação que dura: não dormir, dormir demais, parar de comer, comer escondido.
- Ansiedade que impede: não conseguir ir à escola, não conseguir apresentar trabalho, crises de falta de ar, medo de sair.
- Marcas no corpo, roupa de manga comprida no calor, ou qualquer sinal de que o adolescente está se machucando.
- Falar em não querer viver, mesmo “de brincadeira”. Isso nunca é de brincadeira.
- Uso de álcool ou outras substâncias que a família percebe.
- Um acontecimento pesado — separação dos pais, luto, mudança, bullying, uma exposição na internet — depois do qual o jovem “ficou diferente”.
Um sinal só, isolado, pode ser fase. Dois ou três juntos, por mais de algumas semanas, pedem uma conversa com alguém de fora.
Como funciona a terapia com adolescente
O adolescente é o cliente. Isso é o que mais muda em relação à terapia de criança. A partir dos 12 anos, a psicóloga trabalha com o jovem, e o trabalho só funciona se o jovem confiar que aquele espaço é dele.
Os responsáveis participam do começo. A primeira conversa costuma ser com os pais ou responsáveis, para entender a história, o que preocupa, o que já foi tentado. Depois, o adolescente entra — sozinho.
O sigilo é do adolescente. O Código de Ética da Psicologia determina que, no atendimento de adolescentes, os responsáveis sejam informados apenas do estritamente essencial para o cuidado. Na prática: a psicóloga conta aos pais como o processo está indo, se há algo que precisa da ação deles, e se há risco. O conteúdo das sessões — o que o jovem disse sobre a namorada, sobre a escola, sobre os próprios pais — fica na sala. Sem isso, o adolescente não fala, e a terapia vira teatro.
Risco é a exceção. Se aparecer risco à vida ou à integridade do jovem, os responsáveis são comunicados. A psicóloga conversa com o adolescente antes, e ele sabe desde o início que essa é a regra.
A família pode ser chamada. Em alguns momentos do processo, faz sentido ter sessões com os pais, ou com todos. Isso é combinado, não imposto.
O que dizer ao adolescente
A frase que mais fecha a porta: “você vai fazer terapia porque está com problema.” A que mais abre: “eu tô preocupada e não sei ajudar; queria que você conversasse com alguém que não sou eu.”
Algumas coisas que ajudam:
- Deixar claro que não é castigo, nem consequência de nada.
- Dizer que a psicóloga não vai contar para os pais o que ele disser.
- Propor uma conversa só, sem compromisso. A primeira sessão não obriga a continuar.
- Oferecer escolha, quando der: presencial ou online, esse horário ou aquele.
- Aceitar um “não” de primeira e voltar ao assunto depois, sem cobrar.
Adolescente que vai obrigado senta e não fala. Adolescente que vai desconfiado, mas por escolha, costuma falar na segunda sessão.
O que a terapia não vai fazer
- Não vai “consertar” o adolescente para os pais.
- Não vai fazer o jovem obedecer, tirar nota boa ou largar o celular.
- Não vai contar aos pais o que ele disse.
- Não vai substituir a presença da família — vai, muitas vezes, ajudar a família a estar presente de um jeito que funcione.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individual. Se houver risco imediato à vida — o adolescente falou em se matar, se machucou, ou a família percebe que algo grave está acontecendo agora —, procure o serviço de emergência mais próximo ou o CVV (ligue 188, gratuito, 24 horas).
Existe um lugar para essa conversa
No Instituto Ser, em Suzano, adolescentes são atendidos por uma das psicólogas da casa, presencial ou online, com a família participando do começo e sendo informada ao longo do caminho. A primeira mensagem é pelo WhatsApp, sem formulário e sem cadastro — e costuma ser da mãe ou do pai.
Jéssica Marinho Vilela — Psicóloga — CRP 06/213353 Rosana Yamamoto — Psicóloga e neuropsicóloga — CRP 06/111030
Referências: Conselho Federal de Psicologia — Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005), art. 13, sobre atendimento de crianças e adolescentes e comunicação aos responsáveis · Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), art. 2º, que define adolescente como a pessoa entre 12 e 18 anos.