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Perimenopausa

Perimenopausa: os sinais que começam antes do que você imagina

Sono que muda, ansiedade nova, palavra que some. Os primeiros sinais quase nunca são no corpo.

Escrito pela equipe do Instituto Ser, em Suzano — SP.
Jéssica Marinho Vilela · Psicóloga · CRP 06/213353
Rosana Yamamoto · Psicóloga e neuropsicóloga · CRP 06/111030
Fernanda Sayuri · Nutricionista · CRN-3 58729

Publicado em

Tem mulher que acorda às três da manhã sem motivo. Não é insônia de preocupação — dormiu bem até ali. Simplesmente acorda, fica uma hora e meia olhando o teto, e dorme de novo quinze minutos antes do despertador.

No trabalho, a palavra some no meio da frase. Aquela palavra de todo dia. Fica na ponta da língua e não vem. Disfarça, contorna, segue — e o resto do dia corre com a sensação estranha de estar operando com metade da bateria.

A paciência não diminui: acaba. Coisas que antes se resolviam sem pensar passam a provocar uma irritação desproporcional, e depois vem a culpa por ter se irritado.

E, quando procura ajuda, é comum ouvir que é estresse. Que é excesso de trabalho. Que talvez seja depressão. Que é fase, vai passar.

Sai da consulta com a impressão de que o problema é ela.

A perimenopausa não começa quando a menstruação para

Esse é o primeiro mal-entendido, e ele custa anos de sofrimento desnecessário.

A menopausa é uma data: o dia em que se completam doze meses sem menstruar. A perimenopausa é o caminho até lá — e ela pode durar de quatro a dez anos. Começa, com frequência, entre os 38 e os 45 anos, com a menstruação ainda vindo todo mês, às vezes até com regularidade.

É por isso que quase ninguém faz a associação. A mulher tem 41 anos, menstrua normalmente, e por isso descarta a hipótese antes mesmo de considerá-la. Ela procura explicação em tudo: no trabalho, no casamento, no filho adolescente, na própria personalidade. Menos no lugar certo.

E ela quase nunca começa pelo corpo

O segundo mal-entendido é achar que perimenopausa é calor. Fogacho é o sintoma que virou símbolo, mas costuma não ser o primeiro — e há mulheres que praticamente não o têm.

Os primeiros sinais são quase sempre estes, e são justamente os que ninguém associa a hormônio:

  • Sono que muda de qualidade. Dormir sem descansar. Ou acordar de madrugada, sempre no mesmo horário, sem motivo aparente.

  • Ansiedade nova. Não é a sua ansiedade de sempre, mais forte. É uma ansiedade diferente, que aparece de manhã, no corpo, antes de qualquer pensamento.

  • Névoa mental. Palavra que some, nome que não vem, dificuldade de segurar duas tarefas ao mesmo tempo, sensação de lentidão.

  • Irritabilidade desproporcional — e a culpa que vem depois dela.

  • Cansaço que não passa com descanso. Dormir o fim de semana inteiro e acordar na segunda igual.

  • Mudança no desejo, no corpo, na relação com a própria imagem.

Repare no padrão: quase tudo nessa lista pode ser lido como estresse, depressão, burnout ou “excesso de coisa na cabeça”. É exatamente por isso que essa fase é tão mal diagnosticada.

Estudos do programa de saúde mental da mulher do Instituto de Psiquiatria da USP indicam que cerca de 80% das mulheres desenvolvem sintomas de ordem mental durante a transição da menopausa. É um dos quadros mais previsíveis da vida adulta feminina — e um dos menos falados.

Por que ninguém te avisou

Porque a conversa sobre menopausa, quando existe, começa tarde demais e fala de outra coisa. Fala de reposição, de calor, de osso — assuntos importantes, mas de um capítulo posterior. Quase ninguém fala do começo, que é psicológico, cognitivo e emocional muito antes de ser ginecológico.

E porque essa fase chega no meio da vida mais cheia. A mulher de 42 anos costuma estar sustentando filhos, carreira, casa e, muitas vezes, os próprios pais que começaram a adoecer. Quando ela sente que está funcionando pior, a explicação disponível é sempre a mesma: é excesso de tarefa.

Só que fazer demais ela já fazia antes — e antes dava conta.

A adolescência ao inverso

A gente trabalha com uma ideia que costuma organizar essa experiência: a menopausa é a adolescência ao inverso.

Na adolescência, o corpo se reorganiza para entrar numa fase, e a cabeça corre atrás, lidando com um corpo que mudou sem pedir licença, com uma identidade em construção e com a descoberta da sexualidade. Ninguém acha estranho que uma adolescente esteja instável — a gente entende que há uma transformação em curso.

Na perimenopausa acontece o mesmo movimento, na direção contrária. O corpo se reorganiza para sair de uma fase e entrar em outra. E a cabeça precisa acompanhar, lidando de novo com um corpo que mudou sem pedir licença, com uma identidade em revisão, com a sexualidade outra vez em questão — e, agora, com a finitude.

A diferença é que ninguém oferece à mulher de 45 anos a mesma compreensão que se oferece à menina de 13.

É por isso que a frase que mais escutamos é: “não sou mais eu”. Não é que ela tenha mudado. É que a estrutura que a sustentava mudou — e ninguém avisou que isso ia acontecer.

As dores que ninguém liga a hormônio

Existe uma queixa que aparece muito e quase nunca é associada a essa fase: dor no corpo.

Articulação que dói ao acordar. Ombro que travou sem ter acontecido nada. Mãos rígidas de manhã. Uma sensação difusa de estar num corpo mais velho do que a sua idade. É tão frequente na transição que existe nome para isso na literatura médica — artralgia da menopausa — e mesmo assim a explicação que a mulher costuma receber é esforço, postura ou idade.

A enxaqueca também muda de comportamento: quem sempre teve pode piorar, e quem nunca teve pode começar agora.

E existe a parte que quase ninguém diz em voz alta, nem para a médica: secura vaginal, dor na relação, infecção urinária de repetição, vontade de ir ao banheiro a toda hora. Essa parte tem uma diferença importante em relação ao calor — o calor tende a passar com o tempo, e essa não. Se ninguém cuidar, ela avança. E é justamente a que a mulher mais demora a contar, porque tem vergonha.

E o que muda por dentro, sem dar sintoma nenhum

Essa é a parte silenciosa, e é a razão pela qual essa fase merece acompanhamento mesmo quando a mulher está se sentindo bem.

  • Osso. Os anos em torno da última menstruação são os de perda de massa óssea mais rápida da vida de uma mulher. Osteoporose não dói e não avisa — a primeira notícia costuma ser uma fratura.

  • Coração. Colesterol, pressão e vasos mudam ao longo da transição, e o risco cardiovascular feminino sobe depois da menopausa. Doença cardiovascular é a que mais mata mulher no Brasil, e ainda é tratada culturalmente como problema de homem.

  • Metabolismo. A gordura muda de lugar — vai para o abdome — e a sensibilidade à insulina cai. Não é falta de disciplina: a mesma comida e o mesmo exercício de cinco anos atrás passam a ter outro efeito no corpo.

  • Cabeça. A transição é uma janela de vulnerabilidade aumentada para depressão, inclusive em mulheres que nunca tiveram um episódio na vida.

  • Tireoide. Alterações de tireoide são mais comuns em mulheres nessa faixa etária, e os sintomas se confundem quase inteiramente com os da perimenopausa. Vale investigar as duas coisas — não uma no lugar da outra.

Por que você não sabia de nada disso

A gente aprende sobre menstruação e sobre gravidez. Sobre o outro extremo da vida reprodutiva, não se fala — nem na escola, nem em casa, nem entre amigas. Muitas mulheres descobrem que a mãe passou por isso só quando começam a passar também.

A consulta de rotina, por sua vez, foi desenhada para prevenir câncer e organizar contracepção. São coisas essenciais, mas não sobra tempo para uma conversa que começa com “ando estranha e não sei explicar”.

Nada disso é para assustar. É o contrário: quase tudo o que está aqui tem manejo — e manejo funciona melhor quanto mais cedo começa. O que faz mal não é a fase. É atravessar a fase sem saber o que está acontecendo com você.

O que fazer com isso

A primeira coisa é a mais simples e a mais difícil: parar de tratar como defeito de caráter. Se você reconheceu três ou quatro itens daquela lista e tem entre 38 e 50 anos, a hipótese merece ser investigada — não descartada porque você ainda menstrua.

Leve isso para a sua médica. Anote por algumas semanas o que acontece e quando: sono, humor, ciclo, memória, energia. Consulta rende muito mais com registro do que com memória, e uma mulher que chega com dados é uma mulher que é levada a sério.

E cuide da parte que não é da médica. Porque existe uma parte que não se resolve com exame nem com prescrição: entender o que está acontecendo, revisar quem você é agora, falar sobre desejo, sobre cansaço, sobre a vontade de largar tudo, sobre a sensação de estar ficando invisível. Isso não é queixa. É a matéria dessa fase.

E é muito mais fácil de atravessar com companhia do que sozinha.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individual. Questões médicas, exames e qualquer conduta medicamentosa — incluindo terapia hormonal — devem ser tratadas com médica ou médico de sua confiança.

Existe um lugar para essa conversa

No Instituto Ser, em Suzano, a gente conduz um círculo mensal e um programa de doze semanas para mulheres nessa fase — com acompanhamento psicológico, orientação nutricional e práticas de corpo. Grupos pequenos, sem promessa e sem pressa.

Referência: programa de saúde mental da mulher do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (ProMulher/IPq-HCFMUSP).

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